segunda-feira, setembro 11, 2006

Hoje

"Hoje foi aquele dia que saí de casa com um porrete nas mãos espancando os postes na cidade abandonada.Queria que sentissem dor,gritassem em pânico no lugar das pessoas que foram embora.Já não lembro quando foram embora nem o porquê.Quem sabe lhes deu uma vontade coletiva de migrar,como as aves e pegaram suas coisas mais preciosas,seus filhos,gatos e cachorros e simplesmente foram-se,sem olhar pra trás.Eu é que fiquei.Não tive o estalo da caminhada.Que houve de errado? Por isso saí batendo em todos os postes,em todos os muros,estourando todas as lâmpadas e quebrando janelas.Quando estava cansado,finalmente resolvi conversar com Deus e subi no prédio mais alto-uma torre imensa e vazia no centro da cidade.Lá de cima pulei no vazio e o azul do céu me tragou de um só gole.Abri a porta do apartamento de Deus.Um lugar fedorento.Eu sabia que ele também não havia ido embora.A tv estava ligada num chuvisco,pilhas de jornais amontoados num canto da sala,as paredes gordurosas com a tinta descascando.Aquilo não via arrumação há tanto tempo...E Deus estava lá,sentado me olhando.Lembrei que estava ali pra meter o ferro nele,estava muito puto.Mas ele nem ligou.Dois caras solítários num apartamento fedido.
Ficamos ali,fumando uns cigarros,silenciosos.Amanhã será outro dia."

"Fragmentos de um diário esquecido" de A*

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