sábado, abril 22, 2006

Dessa vez mais chuva pra variar

Agora escrevo do trabalho.Vim pra observar algumas maravilhas celestes e só vejo cântaros de água sobre a cidade de Fortaleza. Além do mais esse maldito teclado é duro como pedra e teclar soa como um espancamento. Chuva de meteoros? Qual o quê! Só um temporal pesado por todos os lado. Estou me sentindo como Noé. E não tenho um maldito pombo pra soltar sobre o mundo.Detesto pombos. Então passo o tempo até voltar pra casa escrevendo,enchendo esse papel virtual de tralhas mentais,rememorações acerbas e humores contraditórios. Não tenho problemas com noites em claro.Amo as noites em claro mais que os dias de cansaço. A noite e eu temos afinidades subterrâneas. Possuimos nossos segredos e somente aqueles que um dia se entregaram a sorte do desvario entendem o que significa cheirar a pele da madrugada. Enquanto isso o som rola suavemente com Philip Glass. Albúm Mishima. Olho lá pra fora.As nuvens refletem as cores laranjas dos postes. Paisagem titânica. Fachos de luz surgem a medida que a chuva desce. Ventos fracos resvalam nas arestas dos prédios perguntando sobre o peso das almas sonolentas. Não há peso nessa hora.Apenas devaneios irresponsáveis,ocultos pela máscara do sonho. Nenhum homem deve ver o rosto do que dorme.
Lá fora os elementos buscam uma pátria que lhes revele o nome das coisas imóveis. Desejam sua durabilidade a todo custo e precipitam-se em furiosa tormenta. Perfuram o crânio da noite roubando-lhe os pensamentos. Açoitam o asfalto com um ódio quase humano e no entanto almejam a carne da terra e seu tutano mais recôndito. Procuram uma mãe pra estraçalhar. Que poderia dizer esse frenesi da chuva senão lembranças do céu imenso e indiferente? E dessas nuvens volumosas e carregadas de ar senão as dores de um parto oceânico? Desabam fetos de água sobre o mundo.Nascituros uivando durante a queda como o mais belo dos anjos,caindo e caindo numa sede implacável por terra e veios escondidos. Coisas que a noite conta em parábolas. Ouçam os que tem ouvidos e vejam os que tem olhos. Glass inspira iniquidades literárias sem sentido.
Pois o tempo põe-se quieto. Clamou como um condenado e depois cansado,calou-se. Berrou e agora dorme satisfeito por assombrar os macacos aqui debaixo. Para constar nos autos,aguardo apenas o amanhecer. Impossível voltar com uma minima segurança para casa.Nenhuma esperança de ver o céu estrelado piscar o olho para mim. Respeito sua disposição em colocar-se as escondidas e liberar os titãs no meio dos vivos. Assim apreciamos devidamente a tranquila eternidade do espaço.
Sem sono vou aqui esperando. Calmamente ouvindo música e escrevendo o que me vier a cabeça. Falta de talento dá nisso.

2 Comments:

Blogger Luiz Carlos Reis said...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

7:02 AM  
Blogger Luiz Carlos Reis said...

Talento? Tú é modesto caro amigo!Aquí escreve-se e muito bem. Teus monólogos são crônicas, palavras singelas que retratam com naturalidade a vida atribulada da terra da garoa...minha linda Sampa!
Amplexos!

7:05 AM  

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