quarta-feira, abril 05, 2006

Será arte?

Folheando "A morte de Virgilio",de H.Broch:
"Ó mão que sente,tateia,recebe,abrange,ó dedos e pontas de dedos,ásperos e tenros e macios,ó pele viva,superfície mais extrema das trevas da alma,descerradas pelas mãos erguidas! Sempre notara ele aquela pulsação esquisita,quase vulcânica nas mãos,sempre o acompanhara o pressentimento de uma estranha vida própria dessas mãos,pressentimento ao qual uma vez por todas ficava vedado atravessar o limiar do conhecimento,como se neste se ocultassem indistintos perigos (...)"
"(...) e o poeta sentia isso,sentia-o em todos os tempos - ah,essa nostalgia de quem sempre é hóspede,de quem nunca pode ser outra coisa que não hóspede!"
Quantas vezes li esse trecho? Quantas vezes repassei cada frase,mergulhado em pensamentos no limite das palavras embalado na poética do texto,imaginando o velho aedo carregado numa liteira,vendo Roma pela última vez enquanto a febre consumia seu corpo. O que resta do homem senão o pensamento? Se seu corpo é uma farsa,pode ainda brilhar em sua mente? Ou,falso paradoxo,apesar de farsantes,sem querer alcançamos algo de sublime e eterno,uma frase,uma melodia,um só olhar que vara a escuridão do futuro e ilumina os não nascidos.
Criaturas ansiosas por compreensão damos tudo de nós por um só momento de mutualidade.Somente quando abandonados a própria sorte de nossas obsessões,quando sentimos a mais lastimosa dor do individuo podemos nos equilibrar no fio e buscar a obra em negro.
Porque escrevi isso tudo acima?Devaneio de uma noite arrastada e chuvosa.

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